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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Onças Pintadas: porque estão atacando humanos?


Cientistas Querem Saber Por Que as Onças Estão Atacando Seres Humanos no Pantanal

A sombra de um tarumã em um barranco do rio Paraguai foi o local escolhido para camuflar a armadilha. A câmera trap, de disparo automático, ficou uma semana presa ao tronco da árvore para tentar solucionar um mistério: quantas onças-pintadas visitavam aquele ponto remoto do Pantanal no Mato Grosso?
A expectativa dos técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação, o ICMBio, órgão responsável pela fiscalização das terras protegidas nacionais, aumentou quando recuperaram a câmera e constataram que havia disparos – sinal de que a armadilha funcionara. Mas a cena que apareceu no visor da máquina trouxe tristeza a todos. Não era nenhum felino selvagem, e sim um homem e uma mulher acendendo uma vela, ajoelhados ao lado de um pequeno cruzeiro de frente para o rio. O casal visitava o lugar no qual o filho, o pescador Luiz Alex da Silva Lara, havia sido morto por uma onça, em 2008.
A morte de Alex foi a quebra de um tabu. Nas lendas de índios e ribeirinhos das florestas e dos sertões brasileiros, são muitas as histórias de homens mortos pelo maior felino das Américas, mas todas sem nenhum registro oficial, o que tornava o ataque fatal da onça-pintada algo mais próximo de um mito. O único caso que se conhecia datava da década de 1980, quando um menino de 8 anos morreu na Vila dos Engenheiros, a residência dos técnicos de uma mineradora em Carajás, no Pará. Aquela, porém, foi uma investida de onça-parda. A falta de registros de ataques também levava os pescadores a crer que as onças avistadas jamais iriam importuná-los nos acampamentos.
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Ao conduzir turistas, Douglas Trent (de boné preto) evita imprevistos: não chega a menos de 20 metros dos bichos e não deixa o barco parado por mais de 20 minutos
Alex foi surpreendido enquanto dormia em uma barraca. Ele acompanhava o pai, Alonso Silva, o mesmo senhor flagrado pela câmera trap e pescador profissional de iscas. No momento do ataque, o jovem estava sozinho. Há duas versões para a localização de Alonso: uma dá conta de que ele estava posicionado abaixo do barranco, limpando peixes às margens do rio, e outra de que ele estaria pescando iscas fora do acampamento e chegou de barco, em tempo de escutar um barulho e se deparar com um animal grande arrastando o filho. Daí em diante, o pai tentou, sem sucesso, espantar o bicho. Decidiu então pegar o barco e buscar socorro. Na lembrança de seu Alonso, eram duas onças. A perícia feita pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), ligado ao ICMBio, aponta que havia apenas um felino no local.
Foi o fim da coexistência pacífica entre as pessoas e as onças em Cáceres, no Mato Grosso, a 221 quilômetros de Cuiabá. Surgiram rumores de que alguém estaria matando os predadores. A carcaça de um animal sem cabeça, recolhida por fiscais meses depois, era uma das provas. As primeiras suspeitas recaíram logo no pai de Alex. “Ninguém pode acusar Alonso, pois muita gente ficou com medo. Pode ter sido qualquer um, até um dono de barco-hotel”, diz o pescador João Alves. “Passamos a ter mais cuidado, e mais medo, pois onça tem muita. Parei de dormir no barranco. Só no rio, dentro do barco.”
Localizada na vizinhança da fronteira com a Bolívia, Cáceres tem sua economia baseada na pecuária. No entanto, nos últimos anos, o turismo de pesca se tornou uma atividade rentável. A cidade chega a receber mais de 100 mil visitantes por ano, atraídos pela facilidade em fisgar peixes grandes, como pintado, dourado e pacu. Alex, o jovem morto pela onça, e seu pai, seu Alonso, trabalhavam como coletores de isca para abastecer os barcos de turistas.
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Além dos peixes do rio Paraguai no Mato Grosso, os turistas são atraídos com a expectativa de avistar as onças. O hábitat da Panthera onca abrange quase todos os ambientes do Brasil. Sua população recuperou-se nos últimos anos
Um segundo incidente envolvendo uma onça-pintada, em junho de 2010, ocorreu a menos de 50 quilômetros do ponto em que Alex faleceu e tornou real um pesadelo para empresários e autoridades locais. A vítima foi um turista em um barco-hotel durante uma pescaria. O bicho pulou do barranco para o barco onde estavam os viajantes e derrubou no rio o estudante João Vitor Brás, de 16 anos. Internado em coma, o jovem, por sorte, sobreviveu. “Nasci de novo”, disse ele à imprensa na época.
As imagens das duas vítimas mostram a ferocidade e o estrago do bote desse felino. Em ambos os casos, os jovens tiveram a cabeça dilacerada e o corpo retalhado pelas garras dos animais. Maior carnívoro da fauna terrestre brasileira, a onça-pintada alimenta-se de 2 quilos de carne por dia quando em cativeiro. É um predador de topo de cadeia, ou seja, um caçador responsável por controlar a população de outros bichos, como capivaras e queixadas. E, diferentemente de seus parentes africanos e asiáticos, que matam suas vítimas por estrangulamento, o felino americano tem uma forma peculiar de aniquilar suas presas: com o poder de sua mandíbula, esmaga a base do crânio. “Em termos proporcionais, a mordida dela é mais forte que a do tigre e a do leão”, explica Peter Crawshaw, pesquisador do Cenap. A diferença entre os casos do pescador Alex e de João Vitor é que, no segundo, o turista teve a sorte de cair no rio. Ele sobreviveu porque a onça não conseguiu usar toda a força para mordê-lo. “Com isso, João Vitor sofreu ‘apenas’ um traumatismo craniano”, diz Crawshaw.
Diante dos dois incidentes, cientistas e ambientalistas começaram a buscar explicações. Por que naquela região estariam ocorrendo ataques de onças-pintadas? O primeiro obstáculo para compreender a situação – e assim salvar a vida de pessoas e animais – foi a total escassez de pesquisas sobre os felinos na área de Cáceres. Faltam estudos até mesmo na Estação Ecológica de Taiamã, criada, em 1981, nas ilhas fluviais de Taiamã e Sararé, uma localização estratégica para a pesquisa científica no rio Paraguai, um dos principais formadores da bacia pantaneira. As duas ilhas abrigam em seus 11,2 mil hectares pontos de grande concentração de biodiversidade.
Uma dúvida dos cientistas é se a agressividade desse animal é motivada por uma retomada da população em uma zona na qual ela estava desaparecida na década de 1980 ou pela invasão do território dos felinos em decorrência do aumento do turismo – ou por uma conjunção destes e de outros fatores. Algumas respostas podem vir dos trabalhos que Rogério Cunha de Paula, pesquisador e chefe substituto do Cenap, e Crawshaw estão realizando em Taiamã. Seu objetivo é fazer um estudo da ecologia das onças, o que inclui um levantamento populacional. “As análises são iniciais. Não podemos afirmar que existe superpopulação”, alerta Crawshaw.
Alguns indivíduos serão marcados com radiocolar para que seus hábitos sejam monitorados e seus territórios determinados. A técnica já está sendo usada em Taiamã e no Parque Nacional do Pantanal – uma região em que Crawshaw atua desde 1976, quando acompanhou o famoso naturalista americano George Schaller em sua passagem pelo Brasil. Curiosamente, ele esteve naquela porção pantaneira porque ali as onças corriam iminente risco de desaparecer.
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Pesquisadores registram pegadas de onça na mesma área onde Alex da Silva foi morto, em 2008
Na década de 1970, uma das ameaças à espécie era a falta de vigilância na fronteira com a Bolívia, o que fazia da área uma porta de entrada de caçadores profissionais que abasteciam a indústria de peles. Na época, as onças viravam cobiçados casacos, vendidos por até 5 000 dólares em lojas finas de Buenos Aires, na Argentina.
O inglês Richard Mason, um ex-caçador de 70 anos que administra uma pousada na chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, testemunhou o tempo de abundância e de declínio de felinos naquela parte do Pantanal. Ele atuava na região a serviço de pecuaristas para matar as onças que estavam se alimentando de bezerros, em um período no qual a caça era permitida. “Até a década de 1960 tinha bastante onça. Cheguei a pegar animais com mais de 2 metros de comprimento e 100 quilos”, conta o inglês, referindo-se aos grandes predadores da região, que superam os padrões encontrados nas florestas da Amazônia. Para o ex-caçador, o problema do gado não era com as onças grandes, e sim com os chamados guaxos, jovens de pequeno porte que perdem a mãe cedo, não sabem caçar direito e se tornam devoradores de gado. “Eu apostaria que o animal que atacou o filho do pescador é um guaxo. Eles costumam ser os mais ferozes, pois passam muito tempo com fome.”
Apesar de orgulhar-se de seu passado, Mason se posiciona contra as caçadas ilegais no Brasil – como as comandadas pelas quadrilhas presas em dezembro de 2010 pela Polícia Federal, na Operação Jaguar. “É uma desonra para os caçadores profissionais. Esses grupos são formados por filhos ricos da elite, que não têm coragem de encarar o bicho e matá-lo com um tiro só. É terrível: eles chegam a dar até 20 tiros na mesma onça, e matam fêmeas prenhes e filhotes.” Antes defensor da liberação da caça no Brasil, nos moldes do que ocorre na África e nos Estados Unidos, Mason diz ter mudado de ideia diante da falta de conscientização e de fiscalização.
Uma das soluções sugeridas pelo ex-caçador é a regularização do turismo de observação dos animais em Cáceres – proposta também defendida pelo Cenap. Os estudos liderados hoje por Rogério Cunha visam buscar uma forma de coexistência pacífica entre as onças e os turistas que já visitam a localidade, ou seja, usar a favor dos animais o que há de mais especial em Taiamã: a chance de ver esses felinos com facilidade em uma das paisagens mais belas do Pantanal – uma região na qual os biomas da Amazônia e da planície pantaneira se misturam e o espelho d’água dá vida a um emaranhado formado por céu, rio, aguapés de flores roxas e vitórias-régias.
Diante do turismo crescente, a saída para minimizar os conflitos em Cáceres foi a criação de regras de observação das onças. As normas, elaboradas pelos técnicos do Cenap e distribuídas no ano passado, são dirigidas a todos os donos de barcos-hotéis, pescadores e pilotos de lanchas da cidade. “Alguns guias e barqueiros locais passaram a cevar os bichos para garantir que o turista irá vê-los”, acusa o biólogo Rogério Cunha, do Cenap. A prática da ceva consiste em jogar peixes ou deixar carcaça de animais para que os felinos se aproximem dos barcos. “É algo muito perigoso, pois faz com que associem o homem à comida.” Cunha relembra que aproximar-se desse animal sem cuidados é pedir para que algo de ruim aconteça. O combate à ceva virou prioridade para os órgãos ambientais.
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Após o ataque de uma onça, João Alves cercou seu acampamento com fios elétricos ligados a um gerador
O alimento fornecido pelos seres humanos talvez sirva como parte da explicação dos dois ataques. “No primeiro caso, é possível que tenha ocorrido uma ceva não intencional, pois a onça poderia ter sido atraída por restos de iscas que estavam na beira do rio”, conta Ronaldo Morato, diretor do Cenap e outro mentor do projeto para o ordenamento do turismo de observação de felinos. No segundo, os guias de pesca aproximaram demais o barco ao barranco, justamente em um dos pontos em que a equipe do Cenap já havia localizado várias cevas. “Não dá para afirmar que essa foi a motivação, mas é a nossa tese principal.”
A facilidade com que se avista uma onça-pintada nos arredores da estação ecológica é surpreendente. Em três dias de barco em Taiamã, ficamos de cara com três indivíduos da espécie, um número elevado, pois, ao contrário do leão e do guepardo, acostumados com carros de turistas em países africanos, a onça é desconfiada. É conhecida por ser um animal de “emboscada” e que evita o contato com os seres humanos. Em menos de quatro horas de viagem de barco, topamos com a primeira onça da expedição, que estava cruzando a nado o rio Paraguai.
Paramos a embarcação e ouvimos o esturro do animal, o grito rouco e similar ao ronco de um motor. No dia seguinte, uma segunda onça possibilita um contato maior. Deitada em um tronco de árvore, ela dorme. Mal se incomoda com a nossa presença, a uns 10 metros dela. Depois de muita relutância, levanta-se devagar, sem nenhum tipo de reação agressiva, e arrasta o corpo pesado por uns 5 metros até a sombra de uma figueira para então se largar na areia fofa. “Não é normal uma onça agir dessa forma. Na Estação Ecológica Taiamã, elas parecem não se importar com a presença humana”, diz Morato.
Os vigias da estação são os que convivem com maior proximidade. Eles permanecem isolados na pequena casa de alvenaria por até três semanas. “Já ficamos presos por horas na casa do gerador, esperando que uma onça que dormia no meio da trilha resolvesse partir”, conta Maria Sebastiana de Moraes. Ela e o marido, Gustavo Cezar Ferregin, trabalham em Taiamã há um ano. Quando aceitaram o emprego, já tinham ouvido falar dos predadores. “Minha mãe dizia que iríamos morrer devorados. Mas eu não tenho medo. Sei que, se seguirmos as indicações dos cientistas, não vamos correr perigo”, diz Maria.
Muitos concordam e acham que é possível a coexistência com os predadores em Cáceres. E que isso pode trazer benefícios para as pessoas. “Acredito que as onças agem de forma diferente aqui porque sabem que não são incomodadas”, diz Douglas Trent, um americano especialista em ecoturismo e que atua no Pantanal há três décadas. Trent leva grupos para viajar nos arredores de Taiamã. O foco de suas expedições é a observação dos felinos. Ele foi o primeiro a perceber o potencial do local para essa prática e tem um acervo de mais de 3 mil fotos de 42 onças. “Basta respeitar as regras mínimas e ter consciência de que, apesar de belo, trata-se de um animal selvagem e territorial.”
Em suas expedições, Trent não permite que ninguém fale nem se aproxime a menos de 20 metros dos animais. Quem quiser obter closes precisa estar equipado com teleobjetivas. Também é preciso ser rápido, já que o barco não permanece parado por mais de 20 minutos.
No início de 2011, um decreto regularizou o turismo de observação de onças no Mato Grosso. As regras foram definidas com o apoio técnico do Cenap e dos órgãos ambientais e de turismo do estado. “Agora caminhamos para uma relação pacífica entre os felinos e as pessoas em todo o Pantanal”, diz Ronaldo Morato.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Oncinha tem patas traseiras quebradas, decerto por atropelamento.


Oncinha Encontrada com Patas Quebradas Passa Por Tratamento em MS

Um filhote de onça parda, que teve as duas patas traseiras quebradas, passou por uma cirurgia e se recupera no hospital veterinário de uma universidade de Dourados, distante 225 quilômetros de Campo Grande. Segundo informações da Polícia Militar Ambiental (PMA), a oncinha foi encontrada no início deste mês em uma estrada vicinal na área rural da cidade.  O filhote tem aproximadamente um mês de vida e pesa dois quilos. A médica veterinária responsável pelo tratamento, Macela Lima informou que foi preciso colocar pinos nas patas da oncinha por causa das fraturas, mas que agora ela passa bem.
“Ela está reagindo muito bem ao tratamento. Está alegre e come todos os dias, mas ainda não pode andar. Daqui a duas semanas deve passar por novos exames pra ver se os ossos foram calcificados”, explicou a médica.  Durante o tratamento, o filhote permanecerá no hospital, em uma jaula improvisada. “É a primeira vez que atendemos uma onça aqui. Como não temos nenhum setor para receber animais silvestres, fizemos uma adaptação. Uma jaula com troncos e folhas de árvores, além de plantas,  para que ele se sinta como se estivesse na mata”, brinca a veterinária.
A especialista ressaltou ainda que procura evitar que a onça tenha muito contato com as pessoas, para que ela não perca suas características silvestres.  Após o término do tratamento, a oncinha será encaminhada para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras) em Campo Grande para ser readaptada ao habitat natural.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cantoria da Covardia nas Feiras de Pássaros - Comércio ilegal!

(de http://programaterritorioanimal.com/?p=9220)


Cantoria da Covardia nas Feiras de Pássaros

O papa-capim é o passarinho mais encontrado nas feiras. Calcula-se que 72 mil indivíduos são retirados da natureza por ano. crédito: Carlos Dias Timm
Criar passarinhos cantadores em gaiolas é comum de Norte a Sul do país. Pesquisa realizada pelo biólogo Rodrigo Regueira chegou a dados impressionantes. Depois de identificar e quantificar as espécies comercializadas em oito diferentes feiras livres da região metropolitana do Recife, calculou que por ano as nossas matas perdem só de papa-capim (Sporophila nigricollis) 72 mil aves, para citarmos apenas a espécie mais vendida nos locais pesquisados.
A pesquisa de Rodrigo foi estruturada com seu orientador, o professor do departamento de Zoologia, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Enrico Bernard. A dupla sabia informalmente da prática da comercialização ilegal de passarinhos em feiras livres. Enrico, por ser mineiro, não identificava as feiras da Região Metropolitana do Recife onde a comercialização poderia estar ocorrendo. Rodrigo sabia o “onde” e contou com apoio para entender o “como”. A dissertação Caracterização do comércio ilegal de animais silvestres em dez feiras livres da Região Metropolitana do Recife chegou a resultados tristes e preocupantes.
Canário-da-terra-verdadeiro faz parte da lista dos cinco mais vendidos em oito feiras livres do Grande Recife. crédito: Aralcal CCommons
Rodrigo avistou 2.130 animais em 22 visitas. Para documentá-las usou uma caneta-espião, artefato que imita uma caneta, mas embute uma câmera de vídeo digital. Com ela, gravou cenas do comércio ilegal de passarinhos em oito das dez feiras que visitou. Só em duas delas, nos bairros da Madalena e Casa Amarela, não foram verificadas a venda de animais silvestres, embora praticassem o comércio de animais exóticos e de produtos para criadores de passarinhos. Em cada uma dessas feiras foram feitas três visitas, a exceção de Cavaleiro, investigada em um único domingo. “Ali a falta de segurança é grande”, explicou Rodrigo.
Além da câmera com resolução de 640×480 pixels presa na gola da camisa, o pesquisador levou um caderno para anotações. “Eu entrava na feira, ia até onde os passarinhos estavam, identificava e quantificava mentalmente, e depois me afastava para anotar”, explicou.
A identificação e a quantificação são importantes para compreender esse comércio. O passarinho mais raro não é necessariamente mais caro. “O que determina seu valor é o canto”, diz Enrico. A mesma espécie pode sofrer variações agudas de preço. “Um papa-capim, a espécie mais comercializada, pode custar R$ 2,50 ou R$ 250,00, a depender do sexo, da aparência e da atividade exibida”, explica.
Em conversas informais, o Galo-de-campina é apontado como espécie antes frequente na natureza e que agora é difícil de encontrar. crédito: Dario Sanches / CCommons
Segundo Enrico, o desaparecimento de espécies é notado por vendedores e compradores. “Entre 2000 e 2005, o passarinho mais procurado era o galo-de-campina e hoje ele é apenas o terceiro mais vendido por falta de oferta”, nota. Entretanto, quem compra e quem vende não chega à constatação óbvia: que a atividade é responsável pela diminuição (ou extinção) das populações.
No trabalho, dos 2.130 pássaros identificados, 67% pertencem a uma das cinco espécies mais comercializadas nas feiras. Em primeiro lugar está o papa-capim (Sporophila nigricollis); o canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) vem em seguida; o galo-de-campina (Paroaria dominicana) é o terceiro; enquanto o quarto é o patativa ou golado (Sporophila albogulares ); e o quinto mais encontrado é o sanhaçu-azul, (Tangara cayana). Quando é possível identificar, apenas os machos são colocados à venda. “As fêmeas não cantam, mas não é possível identificar o macho em todas as espécies”, explica Rodrigo.
O cruzamento com estatísticas de outros trabalhos acadêmicos levou à conclusão mais alarmante. Para cada animal colocado à venda, outros três morrem ao longo do processo. Logo, cada papa-capim exibido na feira representa quatro indivíduos extraídos da natureza. Para fazer uma projeção da perda de aves, utilizou-se a amostragem por feira, o número de semanas por ano em que são realizadas e a premissa de que todos os animais exibidos são vendidos. No caso do papa-capim, calculou-se que, por ano, 72 mil são furtados do seu habitat. Apenas no comércio ilegal dessas oito feiras no Grande Recife.
O trabalho também joga por terra mitos benevolentes sobre esse comércio. Os vendedores não prezam seu produto. “Eles são cruéis no trato das aves”, afirma Rodrigo. Dos 2.130 passarinhos avistados, 82% apresentavam sinais de estresse, 1% estava ferido e um estava morto. Em conversas informais, no entanto, o pesquisador soube que os animais mortos são rapidamente descartados, pois os traficantes não querem estragar sua imagem junto aos clientes.
O ambiente das feiras é tenso. Na maior feira observada, no bairro do Cordeiro, é grande a quantidade de pessoas em circulação. Há informantes, desconfiança no ar, olheiros bem posicionados, homens que formam barreiras para ocultar as pequenas gaiolas superlotadas. Não há inocência, todos sabem que praticam um crime previsto na Lei de Proteção à Fauna, sancionado em 1967, aprimorada pelo artigo 225 da Constituição da República.
É tráfico de animais, crime ambiental, mas mesmo assim é um comércio “de família”. Entre situações costumeiras, relata Rodrigo, está “o pai levando o filho para escolher um passarinho ou homens que os compram para presentearem a esposa ou namorada”. Além do comércio ilegal de aves, na feira do Cordeiro é grande a quantidade de vendedores de gaiolas, insumos, frutas preferidas pelas aves e galhos para formar ninhos.
O faturamento é alto. Em Cordeiro, de acordo com a estimativa do trabalho, estimou-se que os traficantes podem apurar só com os pássaros até R$ 340 mil por ano. Nas oito feiras pesquisadas, o total pode chegar a R$ 1 milhão. “É possível que os valores sejam maiores, porque esse resultado foi feito com apenas um observador, nas primeiras horas em que ocorrem as feiras”, diz Rodrigo.
A atividade é matinal. As feiras começam a reunir vendedores e compradores a partir das 5h da matina, em geral aos domingos. Às 7h30 poucos permanecem no local e às 8h já são raros os vendedores. Em nenhuma das 22 visitas a esses pontos comerciais ilegais foi registrada a presença de um policial ou fiscal do Ibama. “As batidas, quando ocorrem, são mais tarde e aí todos já foram embora”.
O levantamento também cruzou informações com o Ibama. Baseado em dados da superintendência em Pernambuco, apurou-se que 82% das apreensões de animais ilegais retirados da fauna é de aves e a maioria de passarinhos. A superexploração levou o Brasil a registrar o maior número de espécies ameaçadas, tanto na lista da Birdlife (2011), como da IUCN (2010). “Um exemplo é a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), considerada extinta na natureza, em grande parte devido ao tráfico ilegal. Outras espécies tendem a seguir o mesmo destino caso essa atividade continue. No Ceará, a captura para comércio ilegal da pintassilva-do-nordeste (Sporagra yarelli) fez com que, hoje, essa espécie seja encontrada apenas no município de Porteiras”, diz o pesquisador.
Fonte: O Eco

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Araras desterradas para a Arábia... Triste!

Vítimas dos mercadores de seres vivos!



Uma arara-vermelha grande na loja Amazon World, no bazar de Doha, Catar. Solitária, esta ave certamente não está feliz (foto: Gustavo Faleiros)


Relatei em um post em ((o))eco Cidades que, recentemente, tive a oportunidade de visitar o emirado do Catar. Na capital Doha, o passeio básico para qualquer estrangeiro que se aventure nesta escaldante península do Golfo Pérsico é uma visita ao bazar (souq em árabe). O principal, a Souq Waqif, fica no coração da cidade e possui dezenas de ruelas com lojas de especiárias, tecidos e outros artefatos típicos do Oriente Médio. Mas não só isso, no bazar o amor pela coleção de pássaros silvestres também está bem representado. Em uma praça, conta-se pelo menos 10 pequenos comerciantes de aves. Minha surpresa foi ver ali exemplares de três espécies típicas da América do Sul, aarara canindé (Ara Ararauna), a arara-vermelha grande (Ara chloropterus) e um papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva).

Perguntei ao vendedor da loja - cujo nome era Amazon World  - sobre de que forma as aves chegavam ali. Ele me disse que eram aves criadas em cativeiro.As araras eram dóceis e brincavam de rolar no chão. Elas podiam ser compradas por cerca de 50 dólares cada.


Arara-canindé no braço do vendedor. Por 50 dólares, qualquer um pode levar uma para casa (foto: Gustavo Faleiros)

Amazon World, na Souq Waqif de Doha. Dono diz que animais foram criados em cativeiro (foto Gustavo Faleiros)

Uma consulta a um amigo biólogo (que prefiro omitir o nome) me esclareceu qual é o principal problema com a venda de pássaros em Doha. É bem provável, diz ele, que os pássaros sejam sim de cativeiro. Mas os psitacídeos, como as araras e papagaios, estão entre os animais mais sociais que conhecemos (até falam, vejam só). Vivem sempre em grupo ou no mínimo na companhia de seu parceiro(a). Nas palavras do amigo biólogo: "ninguém que tenha um destes pássaros em casa pode suprir a demanda por atenção que estes animais precisam". No vídeo abaixo, o meu registro do papagaio-verdadeiro, nitidamente não muito contente com a exposição no mercado.


(de http://www.oeco.com.br/fauna-e-flora/25233-tristes-araras-em-mercado-arabe)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cosmos: história de uma onça urbana

Tadinhos dos pumas!



Fotografia desse macho tirada em abril de 2009, por armadilha fotográfica (Márcia Rodrigues).
Peter G. Crawshaw Jr.*
Comecei a ficar preocupado. A onça em cima da mesa de cirurgia dava mostras evidentes de que estava se recuperando rapidamente dos efeitos do anestésico, já querendo se levantar. No entanto, o veterinário Marcelo Telles, do Zôo de Paulínia, SP, continuava, com invejável sangue frio, suturando um corte aberto, resultante do arame do laço armado para capivara em que o animal tinha caído, uns dias antes. Pelo menos a minha parte já estava pronta, tendo já coletado os dados biométricos e colocado o colar com rádio transmissor VHF no pescoço desse macho adulto de onça-parda, de 50 kg. Tivemos que evacuar rapidamente a sala, pedindo que as mais de 20 pessoas, entre técnicos e estudantes e pessoal das emissoras de rádio e televisão, se retirassem. Com os últimos pontos fechando o ferimento, tivemos que usar de força para conter o animal e em cinco pessoas, conseguimos, com alguma dificuldade, colocá-lo dentro da caixa-transporte, na qual ele seria levado para a soltura. Felizmente, o animal não demonstrou nenhum sinal de agressividade, estando apenas, compreensivelmente, agitado.



Fotografia do mesmo animal depois de capturado, no Zôo de Paulínia, em fevereiro de 2010 (Correio Popular de Campinas). Comparar os cortes nas orelhas, das duas fotos.
Seguimos em caravana, de uns 7-8 carros, para o local pré-definido para retornar o Cosmos (assim chamado pelo pessoal do zôo em função do local onde ele havia sido capturado) à natureza. Para chegar ao destino, nas várzeas do Rio Atibaia, em Paulínia, SP, atravessamos quilômetros de estradas estreitas dentro de extensos canaviais. Coincidentemente, antes da sua captura inadvertida por um caçador ilegal, esse macho havia sido fotografado várias vezes pelas armadilhas fotográficas utilizadas em um projeto de pesquisa conduzido pela minha colega Márcia Rodrigues, do Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros – antes Predadores...). O Cenap é um centro especializado do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBIO, autarquia do governo federal responsável pelas unidades de conservação brasileiras. Chegando ao local, a caixa de transporte foi descarregada e colocada com a porta tipo guilhotina virada em direção à mata. O mais difícil foi manter o silêncio necessário junto aos repórteres das diferentes emissoras de rádio e televisão, cada qual querendo garantir o melhor ângulo de filmagem e gravação. Ao final dos primeiros 15 minutos, eu já não conseguia esconder minha irritação e eles certamente não acharam muito simpática minha atitude, repetidamente pedindo silêncio. Como resultado, obviamente o animal se recusava a sair da segurança e do escuro da caixa. Os minutos passavam e o pessoal ficava mais impaciente. Finalmente, conseguimos que a maior parte das pessoas deixasse o local, garantindo que depois cederíamos as imagens da soltura. Com o silêncio, e com algum estimulo, o animal finalmente saiu da caixa, mas ao invés de entrar no mato, deitou-se, ainda tonto, na estrada (abaixo).



Soltura do macho Cosmos, dia 08 de fevereiro de 2010.
Passaram-se ainda mais uns 45 minutos até que ele se animasse a caminhar, a passos trôpegos, pela estrada entre a mata e o canavial. Quando finalmente ele desapareceu da nossa visão, foi para o lado da cana-de-açúcar, e não para dentro da mata. Para mim, esse foi um indicativo de como esse tipo de paisagem, que atualmente cobre a maior parte do estado de São Paulo, passou a ser um dos habitats utilizados por essa espécie de grande predador. E essa capacidade impressionante de adaptação tem ajudado a onça-parda (ou suçuarana, Puma concolor, o mesmo puma-vilão dos filmes do Walt Disney), a recuperar e recolonizar áreas de onde ela havia sido extinta, nos últimos 50 anos.


Prova disso é que o caso do Cosmos não foi uma ocorrência isolada. A Associação Mata Ciliar é uma organização não-governamental, com sede em Jundiaí, na grande São Paulo, que mantém o Centro Brasileiro para a Conservação dos Felinos Neotropicais e o Centro de Reabilitação para Animais Silvestres desde 1997. Até 2009, a associação nunca havia recebido chamadas envolvendo onças pardas. No período de março de 2009 a setembro de 2010, foram registradas pela AMC 11 ocorrências com onças pardas, apenas na região metropolitana de Campinas!  Recentemente, eu fui convidado pela veterinária Cristina Adania e Jorge Bellix, responsáveis pela associação, a participar de uma coletiva de imprensa, sobre a soltura de outra onça-parda, apelidado de Anhanguera, por ter sido atropelado por um veículo nessa rodovia. O motorista responsável, reconhecendo o inusitado da situação, e em uma atitude louvável, imediatamente acionou a Polícia Ambiental, que solicitou a ajuda do pessoal da Mata Ciliar. A foto 4 mostra o momento quando o animal foi resgatado, depois de anestesiado com um dardo tranqüilizante.



Macho jovem de onça-parda atropelado na rodovia Anhanguera, sendo resgatado, depois de anestesiado pela veterinária Cristina Adania, da Associação Mata Ciliar, em setembro de 2009.
O animal, um macho ainda novo, a julgar por sua dentição muito branca e com muito pouco desgaste, estava provavelmente em pleno processo de dispersão, característico de quando um filhote, com cerca de um ano de idade, já adquiriu sua independência nutricional, tendo já aprendido da mãe todo o necessário para sobreviver sozinho. Nesse momento, um dos mais dramáticos na vida de uma onça, a própria mãe força o filhote a deixar a área natal, e sair à procura de um território próprio. Somente a partir do estabelecimento desse território, um macho será aceito por uma fêmea residente, para atuar como reprodutor e garantir a introdução dos seus genes na população local. É durante essa fase que se verifica a maior mortalidade para os jovens machos. Eles atravessam territórios desconhecidos, cheios de perigos, não somente advindos de outros machos, que defendem seus próprios territórios da invasão de transientes, mas também – e principalmente – ter de enfrentar todas as modificações estranhas e hostis, em uma paisagem que está bem longe de ser o ambiente natural em que a espécie evoluiu por milhares de anos. Não é raro, hoje em dia, um desses animais aparecer dentro de casas, construções abandonadas, ou procurar abrigo em cima de uma árvore, nos arrabaldes de cidades, muitas vezes acuado por cachorros de rua. Frequentemente, a imprensa noticia casos como esses até mesmo em cidades grandes, em vários estados do país. Na verdade, nos últimos cinco dias, eu recebi informações de mais dois animais atropelados, e que sobreviveram. Um deles foi uma onça-parda na região de Jaboticabal, SP, e o outro, uma onça-pintada no estado de MT.


O doutorando Marcel Penteado, orientado pela Dra. Eleonore Setz, da UNICAMP, e pelo Dr. José Eduardo Mantovani, do INPE, também tem acompanhado várias ocorrências com suçuaranas, nos últimos 10 anos, em cidades da RMC, como Sousas, Joaquim Egídio, Morungaba, Valinhos, Vinhedo e Itatiba. Dois outros machos, um adulto e um jovem, foram atropelados e mortos em estradas vicinais, não tendo tido a mesma sorte do Anhanguera. Apesar da persistência destes animais na região não foram registrados muitos casos de predação de rebanhos efetivamente ocasionados por suçuaranas.


Uma destas suçuaranas, apelidada M1 ou Rock, foi capturada em junho de 2009 e recebeu um radio-colar com GPS e satélite, que possibilitou o seu monitoramento durante cerca de seis meses. O equipamento é similar ao utilizado para rastrear automóveis e caminhões, em que localizações periódicas diárias são gravadas no receptor de GPS do colar, as quais são repassadas a intervalos pré-definidos para o satélite, e depois retransmitidas para uma estação de pesquisa, chegando ao pesquisador pelo seu email. Embora radio-colares com GPS estejam entre o que existe de mais avançado para o rastreamento de animais de médio e grande porte, alguns projetos que utilizam esta ferramenta ainda sofrem com falhas no equipamento. No caso do M1, houve problemas com a transmissão de dados em tempo real via satélite, devido à quebra de uma antena no próprio colar. Entretanto, as localizações diárias foram registradas e armazenadas na memória do equipamento. Quando o problema no colar foi detectado, foi acionado um outro dispositivo remoto, que fez com que o colar se abrisse e caísse do animal, permitindo a sua recuperação pela emissão de sinais em freqüência VHF. O resgate do colar demandou dois sobrevôos e dois dias de busca no campo, mas ele foi encontrado e foram recuperados todos os dados referentes aos deslocamentos do animal durante o período monitorado. As quase 900 localizações registradas permitiram uma análise detalhada dos padrões de deslocamento do animal, incluindo a distância diária percorrida, a sua velocidade média, as áreas preferidas, o quanto se aproximou efetivamente da zona urbana e a frequência com que isto ocorre, entre outras informações importantes. Utilizando outro tipo de equipamento este nível de detalhamento nos resultados não seria viável.


As localizações acumuladas até o momento mostraram que esse animal teve preferência por remanescentes florestais e matas ciliares, embora comparativamente as áreas destinadas às plantações e canaviais sejam muito maiores. Também não foram frequentes às vezes em que se aproximou da zona urbana e de rodovias. É bem provável que parte do padrão de movimentação adotado por este animal seja atribuído à predação em capivaras, abundantes em toda a RMC. Deste modo, as suçuaranas estarão certamente contribuindo para o controle da população desta espécie de roedor, conhecido hospedeiro de carrapatos que são vetores de doenças potencialmente importantes, como a febre maculosa. Outras espécies de presas presentes na região são tatus e veados, tendo carcaças dessas espécies já sido encontradas predadas.


Embora a área utilizada por esse animal seja bastante grande, sabe-se que existe sobreposição de áreas, em que vários animais podem compartilhar partes do mesmo território, já tendo sido registrados fotograficamente até cinco indivíduos diferentes no mesmo ponto de monitoramento. Nesses casos, geralmente as áreas constituem limites entre territórios de animais diferentes, vizinhos, onde a deposição de urina, fezes, arranhões e outras formas de comunicação visual e olfativa é muito mais freqüente. Um fato que chama a atenção sobre o monitoramento de dois dos animais aparelhados, o M1 e o Cosmos, é que eles têm utilizado territórios vizinhos, sem que nenhuma sobreposição tenha sido detectada até o momento, divididos pela estrada Paulínia/Cosmópolis (SP-332). Como parte das pesquisas sendo realizadas nos diferentes projetos, será possível determinar, muito em breve, se existe algum parentesco entre esses dois machos adultos vizinhos.


Segundo o Dr. Luciano Verdade, professor da USP/Esalq (e antigo colega, quando estávamos em Gainesville, na Universidade da Florida), casos como esses evidenciam a capacidade adaptativa que certas espécies, mesmo de carnívoros de médio e grande porte como o puma, vêm demonstrando em resposta às inúmeras e profundas alterações ambientais causadas pelo homem. Para compreender tais processos adaptativos, é preciso ter em mente dois aspectos ligados ao tempo. Mesmo no Brasil, certas áreas já sofreram profundas alterações, principalmente ligadas à expansão da agricultura. Do ponto de vista evolutivo, o tempo deve ser contado não em meses ou anos, mas em número de gerações. Assim, para pequenos roedores, 200 anos representam cerca de 200 gerações! Mesmo para animais mais longevos, que têm intervalos mais longos entre gerações, esse tempo já é suficiente para a ocorrência de um número relativamente grande de gerações. Para o ser humano, por exemplo, 200 anos seria o tempo suficiente para oito a dez gerações, mas para o puma, é suficiente para 40 ou 50 gerações, o que já permite um processo evolutivo do ponto de vista da mudança do patrimônio genético da população de uma espécie, em resposta a um processo seletivo. E nem é preciso lembrar o quanto nossas pressões antrópicas são fortemente seletivas! Em relação a elas, há apenas dois caminhos às espécies silvestres: a extinção local ou a adaptação. No caso de espécies como o puma, mesmo em alterações ambientais de prazo mais curto, há a possibilidade de processos de “aclimatação”, ou adaptação fenotípica (por exemplo, fisiológica ou comportamental), que ocorre ao nível do indivíduo, dentro de uma única geração. De um lado, não deixa de ser um alento saber que uma parte das espécies silvestres consegue sobreviver em paisagens dominadas por canaviais ou eucaliptais. De outro, no entanto, há uma questão filosófica ligada à possível perda de seu caráter selvagem e a nosso direito – ou não – de intervir de forma tão profunda não apenas nos padrões de distribuição e abundância das espécies de nossa fauna e flora, mas também – e principalmente! – no processo evolutivo que as molda.


A Márcia, no final do ano passado, pediu transferência do Cenap para assumir o cargo de responsável por uma das poucas áreas de conservação remanescentes na RMC, a ARIE (Área de Relevante Interesse Ecológico) do Matão de Cosmópolis, no município do mesmo nome. Embora com apenas 173 ha, sua área se torna um ponto de apoio fundamental em um sistema de pequenas ilhas de mata que ainda sobraram na região, dentro do conceito de “stepping stones”. Outro colega e amigo meu, Dr. Laury Cullen, do Instituto de Pesquisas Ecológicas, tem popularizado o conceito das onças como detetives ecológicos, em que elas nos mostram, através do monitoramento intensivo pela rádio-telemetria, quais são os pontos importantes que elas utilizam no mosaico da paisagem, entre os seus componentes naturais e antrópicos. A Márcia está encabeçando uma iniciativa para a criação de um Corredor Ecológico das Onças na RMC (ver mapa), se unindo a pessoas e instituições comprometidas com a causa, incluindo a participação de um procurador da República, da região de Campinas. O objetivo do projeto é “mostrar que um indicador do equilíbrio da biodiversidade da Região que compreende Matão, em Cosmópolis, até Santa Genebra, em Campinas, é a preservação da onça-parda e encontrar uma maneira, em conjunto com os diversos agentes sociais (stake-holders), de preservá-la. A mais recente conquista da Márcia foi a aprovação do projeto “Pagamentos por Serviços Ambientais no Corredor das Onças da RMC” pelo FUNBio, no processo seletivo da Chamada 05/2010 para o Tema 4 – Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), no âmbito do Projeto Mata Atlântica II – AFCoF II. O projeto tem como objetivo elaborar e executar um “Plano de Pagamento por Serviços Ambientais” (PSA) pela conservação da biodiversidade na Região Metropolitana de Campinas, utilizando a onça-parda como espécie bio-indicadora. A estratégia p/ viabilizar o corredor ecológico das onças é a comercialização de créditos de carbono para recuperar e proteger a vegetação florestal nas áreas de circulação das onças. Desta forma, uma indústria ou empresa interessada na neutralização voluntária do carbono emitido por suas atividades (ou como parte delas) compra cotas de carbono em sumidouros, que são as áreas reflorestadas ou mantidas como parte do corredor das onças. Caso seja confirmada a presença de onças nas propriedades rurais participantes do projeto, o proprietário rural receberá um prêmio, na forma de um pagamento adicional pelos serviços prestados, e a indústria ou empresa, se quiser receber o selo “Empresa Amiga da Onça” pagará um pouco a mais pela tonelada de carbono. Este adicional pago será repassado ao proprietário do sumidouro de carbono como pagamento por serviços de conservação da biodiversidade na RMC. Para dar transparência e credibilidade, o Programacarbono® fará a divulgação de inventários de emissões, o cadastro de sumidouros e o comércio de créditos de CO2 no Corredor das Onças. Essa é uma forma criativa de ligar a presença das onças, geralmente feita em uma conotação negativa, com ações e iniciativas no sentido de diminuir ou neutralizar efeitos prejudiciais de atividades poluentes de empresas da região. O projeto conta com as parcerias de várias instituições, entre elas o CENAP/ICMBIO, a UNICAMP, o Jardim Botânico de Paulínia e a Cia. Brasileira de Florestas Tropicais, entre outras.


Enfim, além dos pontos anteriormente mencionados pelo Luciano, para mim, a história das onças-pardas urbanas, contada aqui, também tem pontos negativos e positivos, que nos fazem refletir sobre a responsabilidade que, queiramos ou não, temos que assumir, como indivíduos e como sociedade. Por um lado, a própria capacidade de adaptação inerente da espécie permite que tenhamos oportunidade para conviver com um predador de topo de uma cadeia alimentar que, embora drasticamente modificada pelo Homem e suas atividades, pode chegar a atingir um equilíbrio no balanço entre espécies nativas e domésticas, praticamente no quintal das nossas casas. Por outro lado, para que haja espaço e segurança para ambos os lados, temos que aprender quais os limites de tolerância, que permitam uma convivência relativamente pacífica. Como já escrevi anteriormente, a conservação de grandes predadores é um teste importante da nossa capacidade de conviver com parcelas naturais (ou não mais tão naturais...) de ecossistemas nos quais foi moldada a nossa existência, e dos quais ainda dependemos para manter a qualidade dos recursos que sempre vão ser imprescindíveis para a nossa saúde e do nosso Planeta.


Primeiro corredor das onças da Região Metropolitana de Campinas.

Fonte: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio/MMA.)


*com Luciano Verdade, Márcia Rodrigues, Cristina Adania, e Marcel Penteado